Entrevista a Diego Armés

ESPÉCIE DE PREÂMBULO

Ouvi falar dos Feromona num sítio qualquer. Fiz o download do álbum a partir do site deles e gostei.

Depois, comecei a falar com o Diego pela net. Recebi a feliz notícia da vinda deles ao Porto. Fiquei na primeira fila, a pouco mais de um metro dele. Posso gabar-me de ser um dos poucos mortais a ter uma cópia original (e autografada!) de “Uma Vida a Direito”.

Numa das nossas muitas conversas sobre nada e coisa nenhuma, lembrei-me de lhe fazer uma entrevista. E o Diego aceitou prontamente.

Com esta e-entrevista super bem-disposta, o que aliás confere perfeitmente com a sua personalidade, dá-nos a conhecer mais de si, dos Feromona e do futuro.

Obrigado, Diego.

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PESSOAL

Antes de mais, gostaria que fizesses uma pequena apresentação de quem realmente é o Diego.
Diego Armés, Mafra, 1979, a viver em Lisboa desde 1998. Benfiquista, liberal e humanista-wanna-be. Gosto de escrever e de fazer música. Gosto de cinema e de boa literatura. Ultimamente, encantei-me com Bukowski, por culpa do baixista de Feromona, o Bernardo. Gosto de bons jantares com amigos e também de sossego. O meu sonho era viajar pelo mundo inteiro e acabar com a fome em África, como diria a Miss Universo.

Sei que o teu irmão começou a aprender música ainda muito novo. Terá esse facto ajudado a que tu também quisesses entrar nesse mundo?
Nem por isso. O que eu queria mesmo era ser futebolista. A minha falta de talento com a bola nos pés foi infinitamente mais decisiva para a minha aproximação ao rock. Isso e a minha falta de talento para tocar guitarra. Porque eu também sou muito teimoso e prometi a mim mesmo que haveria de conseguir. Hoje aqui estou, toco muito mal mas até dou entrevistas. Devia ter feito o mesmo com o futebol e insistir, insistir… De certeza que ganhava mais.

Bandas/artistas favoritos?
Muitos. Seria uma lista demasiado grande da qual não constaria o Michael Jackson.

Lembras-te do primeiro concerto a que assististe? E do mais marcante?
O primeiro concerto “grande” (sort of) que vi foi dos Sitiados, em Mafra, ao ar livre. Nunca vou esquecer a “alma” com que o João Aguardela agarrou naquele público. Foi a festa completa. Concertos que me marcaram foram muitos. Os Smashing Pumpkins ao vivo em Cascais (o primeiro realmente grande que vi), em 1996, o Beck no Coliseu, em 1998, os Sonic Youth na Aula Magna, em 2003 (acho eu, não tenho a certeza), o Lou Barlow na ZDB, em 2005… Foram vários. E estou seguramente a esquecer-me de alguns. Os Morphine, claro, na Praça Sony, em 99, acho eu. Os Muse no Sudoeste, em 2002. Portanto, tudo coisas de quando eu era novo e ia ver concertos.

Como descreverias o estado actual da música em Portugal?
A música é boa. O país não é mau. A maneira como se tratam um ao outro podia ser bem melhor.

Achas que é fácil uma banda conseguir singrar no nosso país?
Não só acho como existem vários exemplos que o confirmam: David Fonseca, Toranja, The Gift, Ornatos Violeta (e derivados), por exemplo. Ou, nesta nova vaga, em que temos os Deolinda, os Peixe : Avião, Os Pontos Negros e os Doismileoito. Estes mais recentes ainda não têm o seu lugar ao sol. Mas é uma questão de tempo. As gerações vão-se sucedendo e esta é a nova, há-de ocupar o seu lugar. Os Xutos e Pontapés hão-de parar de tocar, lá para 2040. É inevitável, o tempo dá cabo de nós todos – e deles também, por mais que lhe pareçam imunes.

OS FEROMONA

Qual a história por detrás dos Feromona?
Recuso-me a resumir tudo o que me aconteceu na vida até ao ano de 2003. O mais que posso fazer é dizer que eu e o meu irmão vimos um documentário sobre vespas e descobrimos a palavra “feromona”. Achámos que era tão fixe que decidimos fazer uma banda, só para usar esse nome. O objectivo era passar na Radar.

Onde deram o primeiro concerto?
No Net-jazz Café, no Chapitô. Penso que agora já não se chama assim. Foi em 2004, já agora.

O vosso álbum de originais, Uma Vida a Direito, teve uma grande recepção pelo público, tendo inclusive recebido boas críticas por parte de alguns especialistas. O facto de terem disponibilizado o álbum para download livre (a exemplo dos Radiohead, em que cada um pagava pelo álbum aquilo que quisesse) foi uma escolha vossa ou foi fruto da “falta de soluções”?
As nossas escolhas estão sempre de alguma forma relacionadas com as soluções disponíveis. Obviamente, não teríamos feito isso se tivéssemos uma major a editar-nos o álbum. Como não tínhamos, pareceu-nos uma óptima ideia, pois poderíamos chegar a muito mais pessoas do que vendendo o disco nas Fnac’s e nos concertos. Aproveito para dizer que esta ideia já existia desde a sessão de gravação na Rua das Flores, em Agosto de 2007, antes de os Radiohead nos terem imitado. A nossa intenção nunca foi fazer igual a eles, mas sim chegar a mais gente. Tem resultado, temos quase 3 mil downloads registados e mais de 7 mil visitas ao site www.feromona.net. Nós nunca venderíamos 3 mil discos.

Alguma(s) música(s) favorita(s) no álbum?
Várias e por vários motivos. Psicologia, pelo seu todo enquanto música e pela minha “minha” estrofe preferida (vai de consulta em consulta…); Mustang, porque é o nosso clássico, muito cinematográfico, cheia de imagens e de ritmo; Balada do Encore, por ser a mal amada, mas que eu adoro; Animal, porque parte a loiça; Conversa de Cama, porque tem este título e não fala explicitamente de sexo (tentem lá fazer igual); Vodka, porque foi uma música que passou de quase esquecida e posta de lado a um “musicão” que agora adoramos tocar e ouvir… Gosto de todas, no fundo. Mas estas penso que são as mais fortes.

Sendo a Catadupa! uma editora não muito grande, houve já convites de editores “maiores”?
Se a pergunta é mais “houve alguma major a querer fazer-vos ricos?” a resposta é não. Mas posso adiantar que, em princípio, o próximo disco vai sair a meias entre a Catadupa! e outra… Mas ainda não posso dizer nomes. Aproveito para agradecer por se classificar a Catadupa! como sendo “não muito grande”. Quanta gentileza…

Sei que já tocaram com algumas bandas que estão agora “em voga” no panorama nacional. Alguma banda com a qual tu e os Feromona tenham uma relação especialmente estreita?
Há várias. Os Smix Smox Smux, Os Pontos Negros, Os Golpes… Por aí fora. Dentro do espectro Flor Caveira e Amor Fúria, felizmente temos boas relações. E não só, claro.

Têm concertos agendados para o que falta do ano de 2009?
Agendados, não. Planeados, sim.

Planos para o futuro, dos Feromona e no campo pessoal?
O futuro dos Feromona passa por fazer o que temos feito, a música de que gostamos, editar o próximo álbum em breve e dar muitos concertos por todos o país. Isso é o nosso plano para o futuro. Pessoalmente, espero começar a ganhar mais. De preferência, a ganhar dinheiro com a música. E escrever coisas, também. Não apenas letras de músicas e resumos de séries televisivas. Daqui a uns tempos, gostava de constituir família e, quando me fartar da cidade, ir viver para o campo e criar gado e escrever poesia. Fazer um filme, talvez. Ainda tenho uma enorme quantidade de sonhos, uns mais pueris que outros.

OFF THE RECORD

Bar ou discoteca?
Bar. Tasca, de preferência. Nada como uma boa tasca – aproveito para sugerir a Típica de Alfama. É o sítio onde vejo o Benfica. Tem SportTV e BenficaTV, imperial a 90 cêntimos e tremoços.

Plugged ou unplugged?
Depende muito do momento. Mas, por princípio, plugged é o meu clube.

Blues ou Jazz?
Difícil, até porque nem sou fanático de nenhum dos géneros. Mas depende do jazz…

Fender ou Gibson?
Fender. Sempre. Stratocaster, pura e simples – pau para toda a obra.

Jantar com o José Cid ou com o Marilyn Manson? (Fábio)
Com o José Cid. Por uma questão de afinidades de palato. Tanto quanto sei, o Manson é vegetariano (who would say? Eu dantes pensava que ele comia cães e gatos… Não que isso me fizesse jantar com ele, de qualquer forma).

Katie Perry ou Lily Allen? (Fábio)
Quem?

DISCOS PEDIDOS

João
O que pensas da cena musical internacional?
Epá, esta pergunta é assim um bocadito generalista… Bom, acho que se vive um momento porreiro de criatividade, se é a isso que te referes. Já atravessámos tempos piores, quando os Linkin Park ainda não tinham sido extintos do planeta, depois da queda daquele cometa…

Além do rock que tocam e cantam, algum outro género em especial te/vos agrada?
Sim, muitos. É preciso dizer todos? Já agora, que fique registado que eu não sei muito bem que género musical nós tocamos.

Banda, álbum e música preferida da década de 90? E da que está a acabar?
Dos anos 90, haveria muito por onde pegar. Podendo escolher só uma de cada, vai assim: banda, Nirvana; álbum, In Utero; música… (epá, só uma?) Serve the Servants (por uma questão de coerência).
Da que está a acabar: banda, Feromona; álbum, Desoliúde; música, Film Noir. Não sabem porquê? É esperar um bocadinho…

Acompanham a música com mais intensidade desde que formaram a banda ou mantém-se tudo igual?
Estranha e criminosamente, a intensidade com que acompanho a música diminuiu – e bastante. Estou cada vez mais umbiguista e a ouvir-me a mim e a mim e a mim…

Francisco
É possível disponibilizarem tablaturas das vossas músicas?
Nope. Elas já tão fáceis de tirar de ouvido. Isso é preguiça vossa.

Para quando novo álbum?
Para breve. Início de 2010, se tudo correr bem.

E um saltinho ao Algarve?
Ainda agora estive lá, em Agosto. Gostei muito de Alvor. Mas, em havendo cachet, tudo se arranja. Isto, no fundo, é como posar para a Playboy. Somos todos muito esquisitos até nos acertarem com o cifrão adequado.

O que achas da relação que existe actualmente entre as novelas/ficção nacional e a música? Achas que é um bom meio de promoção de novas bandas? Os Feromona já ponderaram ou ponderam aceitar um desses convites, na eventualidade de ele surgir?
Bom, só ponderaríamos isso se os convites existissem mesmo. Antes de mais, as pessoas das novelas teriam de saber que os Feromona existem. Portanto, vou saltar a parte em que supostamente deveria dizer “nunca na vida eu faria uma música para a TVI! Ouviram? Nunca!” por uma questão de decôro – isto, no fundo, é como pousar para a Playboy… Se é um bom meio de promoção? Claro que sim. Se é o ideal para Feromona? Claro que não. O que penso das bandas que o aproveitam? Acho muito bem que o façam – cada um safa-se como pode.

Qual o teu estilo musical preferido?
Não havia uma pergunta parecida ali para trás? É muito complicado responder a isto… Nasci com rock progressivo, entrei na puberdade com hard-rock, nasceram-me os primeiros pêlos na cara com o grunge, comecei a fazer a barba com o punk da Califórnia, entrei para a faculdade a ouvir os Sebadoh e, presentemente, entretenho-me com o chamado indie rock, que é assim uma pop muito inspirada e tecnicamente pobre – generalizando, o que tem sempre o seu quê de obtuso. Abreviando, fui ficando musicalmente mais estúpido. Estou sempre à espera do dia em que dou por mim a ouvir nu-metal. É assim que se escreve? Mas também gosto de fado e de bossa-nova, o que, parecendo pouco, acaba por melhorar substancialmente a minha imagem, neste momento.

Nos anos 50 houve o Elvis, os Beatles nos 60, nos 70’s os Queen, nos 80’s os Guns e o Michael Jackson e nos 90 a “Geração Nirvana”. E a nossa geração? Generalizou-se e perdeu os ícones ou os génios só são reconhecidos a posteriori?

Nesta geração não morreu ninguém com um tiro na cabeça. Isso tem o seu peso. Mas não tenho dúvidas de que o Alex Turner ou o Julian Casablancas ou o Matthew Bellamy serão reconhecidos quando se fizerem as contas com a história. E são ícones. E dos fortes. Ou esses vossos cortes de cabelo, calças justas e All Star foram uma ideia estética que vos surgiu aí em casa enquanto estavam a ver o Portugal no Coração?

Ricardo
Foi fácil tocar no Japão?
Foi. Foi como tocar em Portugal. Difícil foi aprender a tocar, isso é que custou.

Diogo ‘Ghelthon’ Costa . 9 de Setembro de 2009

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Uma resposta to “Entrevista a Diego Armés”

  1. Gostei!

    Estou curioso para ouvir o álbum.

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